Ser hoje uma pessoa LGBTI+ em Portugal voltou a ser um acto de resistência. Depois de décadas de luta por direitos fundamentais, assistimos ao regresso de um clima que muitos julgavam definitivamente enterrado. Multiplicam-se as agressões, o discurso de ódio ganha espaço nas ruas e nas redes sociais e a extrema-direita sente-se cada vez mais legitimada para transformar seres humanos em inimigos públicos. O que está em causa já não é apenas a comunidade LGBTI+. O que está em causa é a própria qualidade da nossa democracia.
O sinal mais preocupante é que esta ofensiva deixou de se limitar às margens da sociedade. Entrou no centro da discussão política. Hoje, na Assembleia da República, discutem-se propostas que procuram restringir direitos das pessoas trans, alterar o regime da identidade de género, limitar o acesso a cuidados de saúde relacionados com a afirmação de género, rever conteúdos ligados à educação para a cidadania e voltar a colocar em causa direitos que muitos julgavam definitivamente consolidados. Mesmo quando algumas destas iniciativas ainda estão em discussão, o simples facto de serem apresentadas revela uma preocupante disponibilidade para transformar os direitos fundamentais em armas de combate ideológico.
Ao mesmo tempo, regressam discursos sobre as chamadas “terapias de conversão”, como se ser gay, lésbica ou bissexual fosse uma doença passível de tratamento. Nada poderia estar mais distante da verdade. A ciência respondeu a essa questão há muito tempo. As principais organizações médicas, psicológicas e psiquiátricas do mundo são inequívocas: a orientação sexual e a identidade de género não são doenças nem perturbações que necessitem de cura. Quem insiste em ressuscitar estas ideias não pretende proteger ninguém. Pretende apenas dar uma aparência de legitimidade ao preconceito e ao ódio.
💬 COMENTÁRIOS (4)
Isto é frustrante demais. Pensei que tínhamos ultrapassado esta fase, mas parece que estamos a recuar. Não vou ficar calado enquanto vejo pessoas a serem atacadas só por serem elas mesmas. A democracia não se defende sozinha.
Isto é assustador mas não pode ser surpresa para ninguém. A gente baixou a guarda pensando que tínhamos conquistado tudo, mas a verdade é que os direitos não são garantidos para sempre. Temos de voltar a unir-nos como fazíamos antes. Força a todos nós 🏳️🌈
Senti isto na pele há poucas semanas quando levei um 'empurrão' na rua só porque ando com a minha rapariga de mão dada. É assustador ver como o discurso de ódio ganhou permissão para existir em voz alta. Mas enquanto houver gente que se levanta, não desisto 💪
Concordo totalmente. Nos últimos meses tenho visto comentários cada vez mais agressivos nas redes, gente a falar de nós como se fôssemos uma ameaça. Nem consigo compreender como é que chegámos aqui outra vez. Mas sim, é tempo de resistência. Somos mais do que eles pensam.